2º Edição | junho 2026

Socialização em Foco

Editorial

Israel Wayne afirma em seu livro “Respostas para o homeschooling” (Classical Press, 2022), que “quem quer que invista majoritariamente seu tempo na relação com uma criança, terá maior influência sobre sua vida”. Como pais, devemos desejar esta posição de influência sobre nossos filhos, e questionar a concepção de que a socialização adequada provém exclusivamente de uma sala de aula institucionalizada. Visando delinear essas perspectivas, a presente edição do Boletim ANED traz textos de mães e de estudantes domiciliares sobre o questionamento campeão nos ouvidos de famílias educadoras: a socialização. Métodos e meios são compartilhados aqui, em relatos de experiências pessoais, comparações com outras formas e contextos de socialização, bem como uma análise ao tema considerando os discursos de famílias judicializadas por praticarem o homeschooling e a abordagem a ele contido nos respectivos processos. A visão e a voz dos próprios estudantes domiciliares se faz presente aqui também, por meio de textos sobre suas vivências sociais e acadêmicas. Que você aproveite esta leitura e a socialize com outros interessados!

Laura Frydrych

Editora do Boletim ANED

Mãe educadora

Doutora em Letras

SOCIALIZAÇÃO: ENCONTROS REAIS

"Ensina a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele." (Provérbios 22:6)

Esse versículo me lembra da responsabilidade que Deus confiou às famílias na formação dos filhos. Educar vai além do ensino acadêmico, envolve transmitir valores, princípios e ensinar a conviver com outras pessoas. Quando falamos sobre socialização, é comum associá-la imediatamente à escola. Durante muito tempo, eu também pensava assim. Porém, a partir da minha experiência como mãe e professora, passei a compreender que a convivência social acontece em diferentes ambientes e que a vida em família e em comunidade exerce um papel fundamental nesse processo.

Quando penso na vida social das minhas filhas enquanto frequentavam a escola, lembro que sua rotina acontecia quase exclusivamente naquele ambiente.

Uma das maiores críticas feitas ao homeschooling é justamente a ideia de que as crianças não terão socialização adequada. Porém, olhando para a rotina que elas tinham, percebo que passavam a maior parte do tempo convivendo com as mesmas pessoas. Nossa rotina era acordar às 7h, se preparar e ir para a escola.

Retornávamos para casa por volta das 18h30. Depois de um longo dia com os mesmos colegas e professores, o tempo que restava era utilizado para jantar, banho, organizar a casa e se preparar para o dia seguinte. Essa é a realidade da grande maioria das crianças que passam o dia inteiro na escola.

Com o início do homeschooling, nossa rotina mudou. Tudo passou a ser feito com mais intencionalidade, inclusive a socialização das meninas. Aquilo que antes eu não tinha tempo de observar, hoje consigo perceber melhor. As meninas passaram a participar de atividades extras, algo que antes eu não conseguia proporcionar devido à correria do dia a dia. E foi vivendo isso que minha perspectiva sobre socialização mudou completamente. Hoje elas convivem com crianças e adultos de diferentes idades e não estão restritas apenas a um grupo da mesma faixa etária, como normalmente acontecia na escola. Além das atividades esportivas, passaram a interagir com pessoas presentes no cotidiano: comerciantes, idosos, famílias da comunidade e outros adultos com quem se relacionam regularmente. Seja no supermercado, em um restaurante ou em atividades da igreja, elas vivenciam situações que ampliam suas experiências de convivência e contribuem para o desenvolvimento de habilidades sociais de forma natural. Percebi que a socialização não está apenas na escola, ela está em todos os lugares, em cada encontro, em cada interação genuína.

Acredito que a escola se faz necessária para muitas famílias e diferentes realidades. Entretanto, para aquelas que decidem assumir de forma mais direta a educação dos filhos, torna-se possível perceber que a socialização não precisa ser algo planejado, pois acontece naturalmente.. Hoje minhas filhas têm a oportunidade de viver experiências do cotidiano. Enquanto muitas crianças experimentam situações preparadas dentro do ambiente escolar, elas aprendem convivendo com pessoas em diferentes contextos. No vôlei, no skate, na natação e na ginástica, encontram semanalmente crianças de várias idades, algo que dificilmente aconteceria se estivessem limitadas apenas a uma turma escolar.

Temos a liberdade de escolher onde queremos estar, com quem queremos caminhar, crescer e amadurecer.

A vida em comunidade nos proporcionourelacionamentos com pessoas que compartilham do mesmo propósito: auxiliar na formação dos nossos filhos à luz de Cristo.

Também compreendemos que toda capacidade, conhecimento e sabedoria vêm de Deus e são desenvolvidos por meio da dedicação diária.

Tenho a certeza que a melhor forma de educar é a que atualmente escolhemos para elas. Vejo minhas filhas crescendo, aprendendo a se relacionar com pessoas de todas as idades e contextos, desenvolvendo uma naturalidade que dificilmente teria se estivessem apenas na escola. E isso me toca profundamente. Elas estão aprendendo que a vida não é feita de ambientes preparados, mas de encontros reais, de pessoas, de histórias. E eu estou aqui, vendo isso acontecer todos os dias.

Milene

Pedagoga, Especialista em Arteterapia, Coordenadora Pedagógica e professora na rede particular de ensino há 20 anos; mãe educadora de 3 meninas.

UM PEQUENO IMENSO MUNDO

Há dias em que imagino o olhar de um espectador externo acompanhando a ‘nossa’ realidade (deveras plural), como quem a assiste de fora. Às vezes, eu mesma me pego vivendo como em perspectiva, naquela dimensão, ensinada por Victor Frankl, em que você contempla e analisa a sua própria realidade como que de um ponto distante.

Em alguns desses momentos, imagino, nossa vida pode facilmente se confundir com um romance antigo: crianças correndo entre quintais enquanto mães cozinham juntas ou planejam novas atividades de estudo; meninas ensinando outras a desenhar ou bordar em seus horários livres; bebês passando de colo em colo sem cerimônia. Um grupo de meninos carregando cadeiras para mais uma sessão de estudo de português; meninos brincando de espadas e usando referências de guerras e cenários medievais. Uma senhora já idosa compartilhando sua história de vida e de fé a um grupo de crianças de diferentes idades. Poemas sendo recitados por crianças ainda pequenas, receitas sendo feitas por irmãos que aprendem, desde cedo, a importância e alegria de serem úteis. Pequenos instrumentistas fazendo a música e os louvores permearem nossas vivências. Pais dedicados se revezando no ensino de diferentes saberes para diversas crianças em ocasiões e locais distintos…

Em vários desses pequenos e grandiosos momentos é difícil disfarçar o arrebatamento que a gratidão me causa. Me sinto como em um daqueles cenários descritos em ‘O Despertar da Senhorita Prim’, onde cada pessoa ocupa um lugar vivo dentro de uma comunidade verdadeira, e não apenas dentro de uma função econômica.

Em vários destes momentos, também sei, poderíamos parecer irreais aos olhos do observador externo imaginário. Mas então lembro que irreal, na verdade, deveria ser o contrário.

Irreal é acreditar que crianças foram feitas para viver necessariamente entre pessoas nascidas no mesmo ano, separadas do restante da sociedade por paredes e horários intransigentes. Irreal é achar normal que pais e filhos passem a maior parte da vida afastados uns dos outros para sustentar uma rotina que frequentemente já não deixa espaço para a própria existência. Irreal é uma sociedade que conhece profundamente organogramas, mas mal olha para dentro de si mesma ou é útil no seu entorno.

Nós apenas buscamos a opção de viver outra coisa.

E talvez seja isso o que muitos chamam — sem compreender — de falta de socialização.

Porque, de fato, nossas crianças não vivem confinadas à socialização estrita da civilização moderna. Elas convivem com bebês e idosos, com mães e pais como professores, músicos, leitores vorazes, etc. Aprendem a conversar e aproveitar o aprendizado a partir de experiências de vida cedidas com muita presença e intencionalidade. Aprendem que o mundo não se limita a sua faixa etária e que há muita riqueza fora dela. Aprendem a aprender, a servir e a aprender enquanto servem. Elas pertencem. E pertencem não apenas a uma família isolada, mas a uma pequena trama viva de afetos, trabalho, cultura, fé, amizade e responsabilidade mútua.

Talvez seja isso que mais desconcerte quem observa de fora: nossas crianças não estão sendo preparadas para o restrito mundo projetado pela educação moderna: o mundo “profissional” e econômico que restringe o homem a O QUE ele será quando crescer e aos outros automatismos modernos.

Nossas crianças já vivem num mundo real — humano, denso, imperfeito, mas cheio de vínculos verdadeiros, papéis e deveres.

Um mundo onde cada pessoa tenta lhe oferecer o melhor que possui.

Não apenas sua profissão.

Mas sua alma.

E assim as permite refletir sobre QUEM elas querem e podem se tornar.

Luiza

Professora e Mãe Educadora

SOCIALIZAÇÃO REAL OU PRESUMIDA?

Depoimentos de famílias judicializadas por homeschooling revelam a distância entre a socialização vivida por crianças concretas e a socialização presumida nos processos judiciais como categoria abstrata de controle ideológico das escolhas familiares pelo Estado.

Por Paula F. C. Lellis

Nos processos judiciais sobre homeschooling, a palavra “socialização” costuma aparecer como pressuposto, não como conceito investigado. Raramente se define o que se entende por socializar uma criança; menos ainda se examina, com base em fatos concretos, como aquela criança efetivamente convive, aprende, brinca, sofre, se vincula e participa do mundo.

A lógica institucional costuma operar por uma sequência simples: criança fora da escola seria criança sem socialização; criança sem socialização estaria em risco; família que educa em casa, portanto, deveria ser nvestigada. O problema está no automatismo dessa cadeia. Quando a conclusão já está dada pela premissa, a criança real perde importância e a socialização real é considerada irrelevante e, em última instância, inexistente.

Os depoimentos de famílias judicializadas mostram outra realidade. As crianças descritas nesses relatos convivem com vizinhos, participam de encontros, frequentam igrejas, circulam por condomínios, brincam com crianças de diferentes idades e estabelecem vínculos fora do espaço escolar. Algumas sofreram na escola e melhoraram fora dela. Outras passaram a temer a intervenção estatal que é apresentada em nome da proteção.

O conflito não se limita à oposição entre escola e casa. O que está em disputa é o significado de socialização. De um lado, aparece a socialização vivida, encarnada, situada nas relações concretas das crianças homeschoolers reais. De outro, aparece uma socialização conceitual, abstrata, jurídico-administrativa, que classifica a criança antes de observá-la.

Hannah Arendt ajuda a compreender essa operação. Em sua crítica à lógica ideológica apresentada na obra “Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal”, uma tradução de José Rubens Siqueira publicada pela Companhia das Letras, em 1999, Arendt mostra que o pensamento pode tornar-se tirânico quando se fecha sobre uma premissa e passa a deduzir a realidade a partir dela. Nos processos de homeschooling, essa lógica se manifesta quando a escola é tomada como condição necessária da socialização infantil. A partir daí, a criança sem matrícula é presumida como criança privada de convivência, independentemente desua vida real. A questão, em vez de ser sobre como esta criança vive passa a ser se ela está ou não matriculada, para responder a alegações generalizantes e, diga-se de passagem, infundadas sobre sua socialização.

No caso de Tomás, relatado por sua mãe, Mariana, a convivência com outras crianças era intensa a ponto de interferir na organização dos estudos. Morando em condomínio, ela conta que “o tempo todo aparecia uma criança chamando para brincar”. Uma das dificuldades práticas do homeschooling, segundo ela, era equilibrar a rotina de aprendizagem com as interações espontâneas que surgiam durante o dia. A mesma criança, ao participar da Expo Homeschooling em João Pessoa, fez tantos amigos que voltou para casa falando de todos eles. Mariana descreve que Tomás retornou com uma verdadeira “coleção de amigo”. O relato importa porque contradiz diretamente a imagem da criança isolada. Tomás aparece como criança que circula, deseja companhia, cria vínculos e participa de grupos de socialização que existem também fora da escola, em outros âmbitos da vida social.

Outro depoimento mostra o funcionamento inverso da lógica institucional em relação à experiência concreta dos homeschoolers brasileiros. Helena relata que recebeu uma denúncia segundo a qual estaria pregando “o fim do mundo” para os filhos e mantendo as crianças “presas dentro de casa”. Para responder às acusações, reuniu materiais pedagógicos, registros das atividades e vídeos mostrando os filhos convivendo com outras crianças. Segundo ela, os conselheiros não quiseram assistir aos vídeos nem conversar com as crianças, alegando não saber avaliar uma situação de homeschooling. A cena revela o ponto central do problema. A instituição foi acionada para verificar uma realidade, mas recusou os elementos que poderiam esclarecê-la. Não assistiu aos vídeos, não ouviu as crianças e não julgou o caso concreto. A suspeita permaneceu mais forte do que a observação.

Essa é a socialização ausente no homeschooling: uma categoria que não precisa da criança, aquela criança viva, que fala, brinca, teme, aprende e se relaciona. Essa é substituída pela criança administrável do processo: “menor sem matrícula”, “aluno fora da rede regular”, “possível vítima”, “sujeito em risco”. O conceito arendtiano de natalidade aprofunda essa crítica. Para Arendt, nascer significa introduzir no mundo alguém novo, alguém que não pode ser inteiramente deduzido das categorias já disponíveis. Cada criança é um começo. Por isso, a infância não pode ser tratada apenas como objeto de administração. Ela exige atenção à singularidade. Uma concepção concreta de socialização deve perguntar quem é esta criança, como aprende, de que tem medo, com quem convive, quais vínculos construiu e que mundo lhe está sendo apresentado. A socialização como conceito abstrato e burocrático tende a reduzir essas perguntas a uma verificação formal: há matrícula ou não há matrícula?

No relato de Mariana, Tomás havia sofrido intensamente no ambiente escolar. Em determinado momento, chegou a dizer que “era melhor voltar para o céu”, frase associada pela família a um quadro de sofrimento emocional profundo. Depois da denúncia, a presença do Conselho Tutelar não foi percebida por ele como proteção. Em uma visita, ao ver o carro do Conselho Tutelar entrando no condomínio, Tomás correu para a casa de um amigo e pediu que fosse avisado quando os agentes tivessem ido embora. Só então retornaria para casa.

A cena desloca a narrativa da proteção. A criança não foge da casa. Ela se refugia na casa de um amigo para escapar da intervenção estatal. A pergunta é direta: o que acontece quando a instituição que afirma proteger a criança passa a produzir medo nela?

Essa pergunta aproxima a análise de Arendt sobre Eichmann, o soldado nazista analisado na obra supracitada, como alguém incapaz de juízos morais, por não querer pensar sobre o significado de suas próprias ações para obedecer o poder cegamente e, assim, “cumprir o seu dever”. A banalidade do mal não consiste em tornar banal o sofrimento, mas em mostrar que atos graves podem ser praticados por pessoas que se protegem atrás de funções, ordens e procedimentos administrativos. Arendt permite analisar a renúncia ao exercício da consciência moral em nome da obediência a uma lógica definida por um processo burocrático. O agente não se pergunta o que está fazendo com aquela criança específica; limita-se a encaminhar, registrar, cumprir e repetir fórmulas.

No caso de Laura, a conselheira responsável pela visita teria visto uma casa organizada, observado a dinâmica familiar, conversado com a criança e comentado que considerava o homeschooling “interessante”. Mesmo assim, quando o caso avançou para o Ministério Público, afirmou que não poderia fazer nada, pois o procedimento já havia sido encaminhado. Segundo Laura, aquilo que a conselheira viu não teve peso diante da engrenagem institucional. A agente observa uma realidade, mas não assume responsabilidade pelo significado daquilo que observou. A burocracia transforma pessoas que viram algo em pessoas que apenas encaminham algo diferente do que viram, mas adequado à lógica do discurso de autoridade da instituição em que trabalham.

Quando todos apenas encaminham relatórios técnicos isentos de humanidade e relacionalidade, a responsabilidade institucional se fragmenta. O Conselho Tutelar envia ao Ministério Público; o Ministério Público requer providências da justiça; o juiz determina matrícula; a escola comunica ausência; a secretaria cobra frequência. Cada instância executa uma parte. A criança, porém, experimenta o conjunto da intervenção e não é vista por ninguém a partir de sua totalidade, só por sua família.

Laura e Renato, pais de Miguel, rejeitam a imagem de que educar em casa seja equivalente a criar a criança em uma “gaiola” ou em uma “bolha”. Laura afirma que o filho brincava regularmente com crianças da vizinhança no quintal de casa, inclusive com crianças matriculadas na escola regular. Relata também que os pais acompanhavam essas interações e aproveitavam conflitos, palavrões ou dificuldades de convivência para ensinar respeito, autocontrole e responsabilidade. Esse depoimento desloca a socialização da simples exposição a um grupo de pares para a convivência mediada. A criança não é simplesmente colocada no mesmo local em que estão outras crianças, ela é acompanhada na relação com os outros. A família interpreta conflitos, estabelece limites e apresenta o mundo: ela faz a mediação entre a natureza e a cultura, entre a esfera privada e a pública. A lógica institucional tende a tratar essa mediação com suspeita. Nos processos, “socialização” muitas vezes significa escolarização: submissão da criança ao espaço reconhecido pelo Estado como lugar normal da infância. A criança pode brincar com vizinhos, frequentar igreja, participar de grupos, viajar para encontros, conviver com adultos e demonstrar desenvoltura; ainda assim, permanece sob suspeita se não estiver matriculada.

No caso de Camila, a visita do Conselho Tutelar seguiu roteiro semelhante. Ela explicou que os filhos estudavam em casa, apresentou materiais pedagógicos e mostrou a organização da aprendizagem. Segundo seu relato, a conselheira insistiu que o homeschooling seria proibido e voltou repetidamente ao tema da socialização. Camila afirma que era “a mesma conversa sempre”. Durante a visita, as crianças apareceram, conversaram educadamente com a agente, brincaram e demonstraram desenvoltura. Ainda assim, o caso foi encaminhado ao Ministério Público. A expressão “a mesma conversa sempre” revela que a pergunta institucional já não funcionava como pergunta real, mas como roteiro de confirmação da premissa abstrata de que ausência de frequência à escola implica ausência de socialização. A criança concreta e suas experiências reais de socialização apareceram diante da agente estatal, mas não interromperam a premissa ideológica previamente estabelecida por ela de que crianças homeschoolers estão privadas de socialização.

Nos depoimentos das famílias denunciadas, o Estado aparece com frequência como produtor de insegurança emocional e física. As famílias relatam que passam a medir palavras, temer denúncias, modificar rotinas, documentar atividades e preparar provas de que seus filhos aprendem, convivem e vivem. A criança, que deveria ser o centro da proteção, passa a funcionar como prova: prova de aprendizagem, prova de socialização, prova de inocência parental, prova de ausência de abandono. Essa inversão é decisiva porque transforma a família em objeto permanente de suspeita. Em vez de o Estado demonstrar que há risco concreto no homeschooling, exige-se que os pais comprovem continuamente que sua conduta não oferece perigo aos próprios filhos por terem escolhido a educação domiciliar. A consequência é uma forma de violência que se apresenta como proteção. Ela pode assumir a forma de notificação, visita, ameaça de multa, ameaça de perda de guarda, ordem de matrícula, relatório, reunião, telefonema ou carro oficial à porta de casa. Trata-se de uma violência institucional e ideológica, protocolar e documentada, frequentemente exercida sem agressividade aparente, mas capaz de produzir medo, retraimento e desorganização emocional e identitária. Sua força não decorre do uso direto da coerção física, mas da permanente possibilidade de intervenção estatal sobre a vida familiar.

Uma análise técnica séria não pode tomar a matrícula escolar como sinônimo de socialização nem transformá-la em um fetiche institucional. A mera frequência à escola nada diz, por si só, sobre a qualidade das relações que a criança estabelece, sobre sua segurança ou sobre seu desenvolvimento social. A escola pode constituir um importante espaço de aprendizagem, convivência e proteção, mas pode também ser um ambiente de humilhação, ansiedade, violência, isolamento e exclusão. É a realidade vivida pela criança, e não a conformidade abstrata a um discurso institucional, que deve orientar qualquer avaliação responsável sobre socialização infantil no homeschooling. Frases como “a matrícula é obrigatória”, “o ECA exige”, “o STF decidiu” e “a criança precisa socializar” se tornam insuficientes quando dispensam o agente público de examinar aquilo que está diante de seus olhos: a criança concreta inserida em suas relações sociais reais.

Arendt obriga a desconfiar do “apenas”: apenas cumprir ordens, apenas seguir o fluxo, apenas encaminhar, apenas aplicar a norma. Esse “apenas” marca o ponto em que o pensamento se retira da ação. Nenhum procedimento é moralmente neutro quando produz sofrimento concreto e quando seus agentes se recusam a julgar o sentido daquilo que fazem. Nos casos das famílias judicializadas por homeschooling, a questão da socialização expõe uma disputa antropológica, jurídica e política sobre quem pode definir o que é socialização. Para as famílias, ela aparece como algo encarnado, nascido em uma história, inserido em vínculos concretos, os quais potencializam na criança a capacidade de iniciar algo novo. Para a máquina institucional, muitas vezes aparece como norma: deve estar matriculada, deve frequentar, deve socializar segundo o que o discurso ideológico criou como premissa.

A pergunta correta, portanto, não é se crianças educadas em casa socializam. Os depoimentos indicam que socializam intensamente. A pergunta relevante é por que certas instituições continuam chamando de ausência de socialização a evidente e relacional socialização riquíssima dos homeschoolers reais. Reconhecer essa socialização real obrigaria o Estado a abandonar a ficção de que só existe infância legítima quando ela se encontra institucionalmente administrada. Os depoimentos das famílias judicializadas sugerem que essa ficção é contestada pelas próprias crianças homeschoolers, com seus medos, amizades, brincadeiras, vínculos e com sua capacidade infinita de gerar a vida no mundo pelos vínculos profundos e verdadeiros de amizade que estabelecem com seus pares.

A TAL DA SOCIALIZAÇÃO

Quando nos deparamos com pessoas que não conhecem o cotidiano da educação domiciliar, a primeira grande dúvida que surge é esta: “Mas e a socialização? Se elas não vão à escola, como socializam?”.

Bom, primeiramente, precisamos ressaltar que não se trata de prisão domiciliar, mas de educação domiciliar, certo? Isso para o caso de alguém ter feito uma pequena confusão semântica. Brincadeiras à parte, cabe esclarecer a natureza desta socialização.

Em primeiro lugar, a socialização começa em casa, no lar. De acordo com a Constituição Federal de 1988, artigo 226, a família é a base da sociedade. Logo, se não há família, não há escolas, igrejas, clubes, nem qualquer outra agremiação social. Um homem e uma mulher que se casam e têm filhos cumprem um papel social fundamental: o de estabelecer a própria sociedade.

Assim, a socialização se inicia na própria família, na interação dos filhos com os pais e com os irmãos. E é crucial destacar esta interação entre os irmãos. Em uma geração onde impera o egoísmo e a disseminação indiscriminada das telas, é comum a cena de uma família com um ou dois filhos em um restaurante, cada qual em seu universo digital particular: em vez de observarmos um relacionamento, no mínimo, cordial entre os membros da família, vemos uma família fragmentada, na qual cada membro persegue seus próprios interesses. Na educação domiciliar, ocorre o oposto: cultivamos a amizade e o cuidado entre os irmãos, incentivamos um relacionamento saudável entre todos e desenvolvemos um senso de pertencimento familiar profundo.

Enquanto a Geração Z não consegue fazer uma pequena compra em um açougue ou devolver um produto comprado equivocadamente, os estudantes domiciliares são treinados para viver em sociedade. Acompanhando os pais onde quer que estes estejam, seja de maneira propositada, para a realização de algum compromisso específico, ou simplesmente porque não há outra figura além da mãe para quem delegar o cuidado das crianças, temos um resultado muito benéfico na educação dos filhos: as crianças participam ativamente do momento. Se é um jantar com os amigos, os filhos estão à mesa com os adultos, participando da conversa; se é uma tarde no clube, divertem-se com outras crianças de idade aproximada; se é uma festinha de aniversário modesta, confraternizam com amigos de todas as idades, ora entretendo os bebês, ora oferecendo ajuda à anfitriã para servir um prato, ora compartilhando seu gosto literário com um jovem mais experiente; se é uma ida ao supermercado ou à padaria, são impelidos a fazer o pedido de forma educada, resolver problemas na ausência do produto de sua preferência e realizar o pagamento. Tudo isso, lembrando-se de ser cortês e educado com o atendente.

Isso não quer dizer que crianças educadas em casa não tenham problemas de relacionamento ou dificuldades para lidar com outras pessoas, sejam elas crianças ou não. O ponto aqui é justamente ultrapassar o limite do conforto e ensiná-las habilidades sociais, as tão famosas soft skills.

Portanto, crianças educadas em casa socializam, sim, com seus pares, outras crianças em idade próxima, e ainda mais com outras gerações. O relacionamento pessoal que essas crianças desenvolvem é intergeracional, pois elas estão constantemente sendo treinadas para aprender a lidar com e a tratar bem pessoas de todas as idades.

Isla A.

Mãe Educadora e Pesquisadora

COM A PALAVRA, OS HOMESCHOOLERS!

VIOLETA, 10 ANOS

MÃE: Você tem amigos?

FILHA: Sim.

MÃE: Onde você costuma encontrar seus amigos?

FILHA: Na comunidade de educação domiciliar e no parque.

MÃE: Quando vocês se encontram, o que mais gostam de fazer juntos?

FILHA: A gente gosta muito de conversar, falar sobre os livros que estamos lendo,

sobre os textos que estamos produzindo e outros assuntos.

MÃE: Você interage com outras crianças que não são necessariamente seus amigos?

FILHA: Sim.

MÃE: Em quais locais?

FILHA: Quando eu vou a eventos com meus pais ou quando vamos visitar a casa de algum amigo deles.

MÃE: Quando vamos à igreja, você se relaciona com outras crianças?

FILHA: Sim.

MÃE: Quando vamos às compras e você quer saber alguma informação ou o preço de um produto, você interage com os funcionários e conversa com eles?

FILHA: Sim

ESTER, 7 ANOS

MÃE: Você tem amigos?

FILHA: Tenho.

MÃE: Onde você costuma encontrar seus amigos?

FILHA: No jazz e no Jiu-Jitsu e também de sexta (Comunidade CC).

MÃE: Quando vocês se encontram, o que mais gostam de fazer juntos?

FILHA: Brincar e conversar.

MÃE: Você interage com outras crianças que não são necessariamente seus amigos?

FILHA: Sim.

MÃE: Em quais locais?

FILHA: No clube.MÃE: Quando vamos à igreja, você se relaciona com outras crianças?

FILHA: Sim.

MÃE: Quando vamos às compras e você quer saber alguma informação ou o preço de

um produto, você interage com os funcionários e conversa com eles?

FILHA: Sim.

GABRIEL, 8 ANOS

MÃE: Você tem amigos?

FILHO: Sim.

MÃE: De onde são os seus amigos?

FILHO: Do clube, do futebol, do Jiu Jitsu, do CC.

MÃE: Onde você costuma encontrar seus amigos?

FILHO: Em todo lugar.

MÃE: Tem outros lugares que você frequenta nos quais você também interage com

outras pessoas?

FILHO: Sim.

MÃE: Você pode dar alguns exemplos?

FILHO: Campo de futebol com meu pai, churrasco da família.

MÃE: E quais atividades você gosta de fazer com outras crianças?

FILHO: conversar, trocar figurinha, jogar bola.

MÃE: Você interage com outras pessoas que são de outras faixas etárias, que não são

crianças?

FILHO: Sim.

MÃE: E quando você vai às compras com seus pais, você interage com outras pessoas

adultas?

FILHO: Sim, com a pessoa do caixa.

DÁLIA, 8 ANOS

MÃE: Você tem amigos?

FILHA: Sim.

MÃE: De onde são os seus amigos?

FILHA: A maioria é de Indaiatuba.

MÃE: Onde você costuma encontrar seus amigos?

FILHA: Na comunidade de educação domiciliar.

MÃE: Tem outros lugares que você frequenta nos quais você também interage com outras pessoas?

FILHA: Sim.

MÃE: Você pode dar alguns exemplos?

FILHA: No parquinho, às vezes na casa de algum amigo [dos pais] que tem outra criança, e na igreja eu posso me divertir com outras crianças.

MÃE: E quais atividades você gosta de fazer com outras crianças?

FILHA: Com os meus amigos, os mais próximos, eu brinco de algumas coisas que eu não brinco com outras crianças, como dar estrelinha com as amigas me ajudando, fazer parada de mão, coisas da minha ginástica. Com as outras crianças, eu gosto de brincar de pega-pega, pique-esconde, pega-pega barata, que são brincadeiras diferentes que eu gosto de fazer.

MÃE: Você interage com outras pessoas que são de outras faixas etárias, que não são crianças?

FILHA: Depende. Na comunidade de educação domiciliar, às vezes eu falo com adolescentes, adultos.

MÃE: E quando você vai às compras com seus pais, você interage com outras pessoas adultas?

FILHA: Não, porque eu não conheço elas. Às vezes, eu dou bom dia, boa tarde.

NA COMUNIDADE

A socialização é algo com que não nos preocupamos na escola, mas que queremos preservar ao máximo na educação em casa. Na escola, estamos sempre cercados de pessoas e amizades por um longo período e, às vezes, não temos tempo de aproveitar tudo verdadeiramente com a nossa família.

Quando eu estava na escola, sem perceber, passei por isso. Eu conversava com a minha família, mas a escola tomava muito o meu tempo e percebi mais tarde que conhecia mais minhas amigas do que minhas irmãs.

Ao chegar no homeschooling, percebi que a atmosfera de casa era muito diferente do que eu achava que seria. Por passar muito tempo em casa, as pessoas ao nosso redor me perguntavam principalmente se eu sentia falta da “socialização”. Vi que, para elas, eu não tinha amigos e não conseguia fazê-los por causa do homeschooling, mas a realidade era bem diferente. Na comunidade, fui muito acolhida por todos e, conforme o tempo passava, fui conhecendo pessoas que me ajudaram a seguir os caminhos de Deus mesmo estudando. Minhas amizades cresceram e percebi que agora eu estava muito próxima do Senhor. Assim, segui caminhando com Ele, pedindo que me ajudasse nos desvios do dia a dia.

Hoje, em minha visão, o que eu mais tenho é socialização. Meu círculo de amizades está também na igreja, onde faço diversas coisas semanalmente e quase não tenho tempo de sobra. O engraçado é pensar que, antes, eu estudava no mesmo lugar em que minha mãe lecionava e, por isso, não conversávamos e mal nos víamos, já que ela ficava muito ocupada. Hoje, fazemos tudo juntas. Minhas amizades na comunidade variam e me sinto em uma família.

Desde as crianças do Foundations aos jovens adultos do Challenge B, a comunidade tem me ensinado muito. Tenho uma amiga, a Hadassa, que estuda comigo e também me mostra muito de Deus nos estudos, assim como minha tutora, Mariele. Não poderia deixar de mencionar, principalmente, minha mãe que, além de minha professora, é com quem falo sobre tudo. Assim, percebi que amizades não me faltam e que Deus sempre está comigo.

Mel, 14 anos

Estudante do Programa Challenge B

Currículo Classical Conversations

BOLHA OU VIDA REAL?

Se eu ganhasse um centavo para cada vez que me fizessem a pergunta: “mas como você faz amigos?”, eu provavelmente já teria financiado a minha faculdade. Existe um mito persistente de que o homeschooling isola o estudante em uma bolha de vidro. No entanto, a minha realidade aos 16 anos mostra exatamente o oposto: a minha socialização não foi limitada às quatro paredes de uma sala de aula, com trinta pessoas da mesma idade; ela aconteceu no mundo real.

Bom, minha vida fora da escola começou cedo, aos 8 anos. Desde então, percebi que o mundo não se divide por séries, faixas etárias, ou classes sociais. Enquanto a escola muitas vezes limita o convívio a jovens da mesma idade, a liberdade do ensino domiciliar me permitiu expandir meus horizontes. Minha rotina se tornou uma experiência em ambientes diversos. Na escola lembro que minha rotina era corrida. Acordava, tomava meu café às pressas, fazia a lição de casa, almoçava, me arrumava e saia para a escola. Onde eu passava a tarde ouvindo, em silêncio, a professora dar aula, saindo por 20 minutos para o recreio, que ou eu comia ou eu conversava com alguma criança da minha sala, que obviamente tinha a minha idade. Lembro que todas as vezes eu comia sentada no chão do refeitório, sozinha, sem conversar com ninguém, e dado o sinal voltava para a sala onde eu ficaria mais horas em silêncio. Nós tínhamos apenas uma aula de atividade física por semana, que na maioria das vezes era brincar de pega-pega, esconde-esconde, ou jogos com bola. Após um dia cansativo, sentada e quieta, passava mais uma hora dentro da van escolar e quando eu chegava em casa já era tarde, então eu basicamente jantava e dormia. E essa era a minha rotina de segunda a sexta-feira, corrida e sem contato com as pessoas. E então iniciamos o Homeschool. Algo que eu nunca vou me esquecer, foi o meu primeiro dia de homeschool. Eu me levantei da cama, e antes que eu pudesse iniciar minha rotina como em qualquer outro dia, me deparei na cozinha com uma linda mesa posta e minha mãe me convidando a cozinhar um bolo de massa de pão de ló com recheio de morango. Ahhhh, nunca me esquecerei desse dia, cozinhamos junto com meus dois irmãos, e foi um momento inesquecível. Depois de tomarmos calmamente nosso café da manhã, minha mãe nos arrumou e saímos para conhecer um borboletário. Lá, nos encontramos com mais 2 famílias que também estavam começando o homeschool. Foi um dia espetacular, completamente diferente de tudo o que eu conhecia como 'estudar'. Eu aprendi e conheci mais sobre as borboletas e a natureza, de uma forma completamente diferente do que eu aprenderia dentro de uma sala de aula. Estar em contato com aquelas famílias, que compartilhavam do mesmo frio na barriga e do mesmo entusiasmo que nós, me deu uma sensação imediata de pertencimento e liberdade. Lembro-me do encanto de ver as borboletas de perto e de como aquela experiência prática superava qualquer imagem de livro didático. Ali, correndo e conversando livremente com os filhos daquelas outras mães, as quais uma veio de ônibus com seus quatro filhos e a outra chegou em seu carro importado, eu tive a certeza de que a minha educação não seria mais sobre o silêncio de uma sala de aula, mas sobre a vida acontecendo ao vivo e a vivas cores. Essa primeira vivência fantástica foi apenas a porta de entrada para uma rotina cheia de conexões reais com as pessoas, que hoje moldam quem eu sou.

A minha semana é preenchida por conversas reais e dinâmicas. Participo semanalmente de uma comunidade do Classical Conversations, onde eu passo um dia inteiro com famílias, amigos e colegas de todas as idades. A maior parte do tempo passo em tutoria com mais seis amigos de 15 a 18 anos, onde aprendemos de todas as matérias em um sistema que nós estudamos os conteúdos em casa, para então discutirmos uns com os outros o que aprendemos. Ali não passamos o dia sentados em silêncio, sem conversar, pelo contrário, passamos a maior parte do tempo em pé, explicando ou debatendo, conversamos em todos os minutos do tempo que temos sobre as matérias que estudamos, e temos liberdade para puxar qualquer assunto sobre a vida real no meio de uma matéria. Assim exercito a lógica dos pensamentos e o debate com meus colegas. Quando não entendo algo de uma matéria, não pergunto para a professora e tenho uma resposta fácil e direta. Eu faço minha pergunta aos meus colegas e juntos chegamos na resposta. No começo do dia, no horário do almoço, no final da tutoria, ou em intervalos tenho contato com muitas outras pessoas. Converso com avós de amigos, peço conselhos para mães e pais que estão ali, brinco em uma roda com crianças de 5 anos, seguro um bebê no colo e leio um livro para ele, tenho tempo e contato com pessoas que vão me ajudar a ser alguém melhor, e desenvolvo a habilidade de conversar e ajudar pessoas mais novas que eu. Fora a comunidade, tenho meu tempo no tatame do karatê, onde três vezes na semana, por cerca de 1h30 por dia, eu aprendo sobre disciplina, concentração, defesa pessoal e respeito mútuo. É um lugar onde além de treinar meu corpo eu treino minha mente. Entendo que assim como devo me relacionar respeitosamente com meu Sensei, meus colegas devem me respeitar de acordo com a minha graduação. Mas isso não quer dizer que não podemos conversar normalmente e formar vínculo uns com os outros. Eu tenho a oportunidade de conversar com homens e mulheres de todas as idades, treinar com todos, apoiá-los em cursos, treinos e competições, assim como eu também sou apoiada, e dar aula às crianças. Foi lá que desde os meus 8 anos, aprendi a importância do respeito e humildade nos meus relacionamentos. Além disso, a comunicação vai além da fala verbal, nos encontros de libras, descubro novas formas de inclusão, conversas e empatia. Eu aprendi e continuo aprendendo a me comunicar em libras e fazer traduções simultâneas. Participo de encontros de surdos onde aprendo mais sobre libras, com jovens e adultos. Onde posso me aprimorar e me comunicar com mais pessoas. Hoje, saber que sei as duas línguas oficiais do meu país, me deixa muito feliz. Pois sei que consigo me comunicar com brasileiros ouvintes ou surdos, num mundo onde poucos valorizam o aprendizado dessa língua para a inclusão dessas pessoas. Exceto tudo isso eu ainda participo de encontros de jovens e adolescentes da minha igreja, da igreja do meu irmão, e da igreja dos meus amigos de outra cidade, que por si só já diz tudo, eu tenho a oportunidade de conversar e brincar de jogos com jovens e adolescentes; participo quinzenalmente de um encontro de mulheres com minha mãe, onde eu posso ter conversas com mulheres mais experientes que eu; entre tantas outras coisas das quais eu poderia ficar horas explicando. Toda essa bagagem mostra que a minha socialização nunca foi desvalorizada ou artificial. Das discussões lógicas na tutoria ao silêncio da Libras, passando pelo respeito no tatame e pelo relacionamento com as mulheres da igreja, a minha vida é cercada de pessoas. Eu não precisei de uma sala de aula tradicional para aprender a conviver em sociedade. O homeschool e o mundo, em toda a sua diversidade de idades e vivências, me ensinou e ainda ensina a ser uma mulher melhor.

No entanto, o reflexo mais bonito dessa trajetória é a facilidade que eu desenvolvi para transitar entre gerações. Participando ativamente das aulas às crianças, dos encontros de jovens, mas também do grupo de mulheres, percebi que consigo me conectar com qualquer pessoa. Mesmo eu sendo uma pessoa introvertida, eu e minha família vemos o tamanho do desenvolvimento da minha habilidade em conversar e me relacionar com as pessoas. Minhas conversas fluem naturalmente, seja compartilhando histórias com a avó de uma amiga na comunidade, debatendo com meus colegas várias ideias diferentes, seja segurando e ajudando a cuidar de um bebê, ou ensinando karatê para um grupo de crianças pequenas. Para mim, a socialização nunca foi sobre popularidade, mas sobre a capacidade de criar vínculos genuínos e saber compartilhar ideias claramente.

Agora, aos 16 anos, olhando para trás, vejo que o homeschooling não me privou da socialização, ele a refinou. Ele me transformou em uma jovem segura, comunicativa e pronta para o mundo adulto. Essa trajetória me deu algo que nenhuma prova ou boletim escolar tradicional poderia dar, ela me preparou de verdade para a vida real, e não apenas para passar de ano. Enquanto o sistema comum muitas vezes treina os jovens apenas para decorar conteúdos e avançar de série em silêncio, onde a socialização envolve apenas cumprimentar um colega na saída, a minha educação me ensinou a pensar por mim mesma, a acolher o outro e a construir um relacionamento entre gerações. Afinal, a vida real nunca foi dividida por salas de aula e, graças a essa escolha, eu já aprendi a viver e a me conectar de verdade nela. Por isso, se hoje alguém me fizesse novamente aquela velha pergunta sobre como eu faço amigos, eu diria que a verdade é que aquela suposta 'bolha de vidro' que muitos acreditam existir no homeschooling nunca fez parte da minha realidade. Minha socialização não foi moldada por quatro paredes ou aparências, mas pela capacidade de me comunicar com pessoas de todas as idades e criar vínculos genuínos. Porque saindo da escola eu não fui isolada do mundo; eu fui preparada para ele.

Mariana Moraes, 16 anos

Estudante homeschooler

CONVIVÊNCIA SOCIAL…?!

Foi em uma rápida conversa, no horário do almoço em um dia de encontro da nossa comunidade de educação domiciliar, enquanto eu observava…

… algumas crianças brincarem após uma manhã de tutoria,

… outras prepararem-se para iniciar a segunda parte dos estudos,

… vendo ainda os estudantes mais velhos, que estavam retornando para

continuidade dos seminários que haviam iniciado nas primeiras horas da manhã...

… que me surgiu a ideia original para a organização de um encontro para além do dia de comunidade.

Esse lindo encontro:

Como amamos estar com pessoas queridas, o convite para o encontro, porém, não se restringiu exclusivamente às 35 famílias da nossa comunidade... Ele foi estendido aos integrantes do grupo (virtual) de socialização da nossa cidade e região. Isso mesmo!

Temos um grupo com diversas pessoas de nosso município e de cidades vizinhas,

… com famílias adeptas e praticantes da educação domiciliar,

… da educação escolar,

… de diferentes práticas de fé, como protestantes e católicas,

… com muitos filhos, e outras com poucos filhos,

… com crianças típicas e crianças atípicas.

Famílias com muitos talentos para artes, música, dança, e famílias desprovidas de talentos artísticos, mas que amam cozinhar, amam receber pessoas, amam ouvir e acolher pessoas.

Muitas, muitas e distintas famílias escolhem estar juntas por amar o outro. Por amar caminhar junto, por amar a convivência social. Por amar a Deus e sua maravilhosa criação.

Famílias que poderiam caminhar sozinhas, mas escolheram compartilhar:

… momentos!

… talentos!

… a casa!

… a mesa!

Compartilhar, enfim, a vida!

Então, quando alguém perguntar se a família educadora proporciona alguma socialização para os filhos, dispense as reticências e responda com entusiasmo - advindo do ponto de exclamação -, e com muita certeza, que SIIIM!

Eliana B.

Pedagoga e Mãe Educadora

Sobre o Boletim ANED

O Boletim ANED é uma publicação mensal do Programa Acadêmico da Associação Nacional de Educação Domiciliar, para colaborar na difusão de produções acadêmicas e relatos de vivências de estudantes domiciliares (homeschoolers) brasileiros e de suas famílias. Visamos oportunizar o compartilhamento de boas práticas, experiências e vivências dos homeschoolers, através de recortes de suas produções estudantis, resultante de sua educação domiciliar, de forma a incentivar e inspirar ainda mais pais e filhos em sua jornada de educação domiciliar.

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Equipe Editorial

Laura Frydrych, Paula Lellis, Eliana Bernardes, e Isla Matos.

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