Se eu ganhasse um centavo para cada vez que me fizessem a pergunta: “mas como você faz amigos?”, eu provavelmente já teria financiado a minha faculdade. Existe um mito persistente de que o homeschooling isola o estudante em uma bolha de vidro. No entanto, a minha realidade aos 16 anos mostra exatamente o oposto: a minha socialização não foi limitada às quatro paredes de uma sala de aula, com trinta pessoas da mesma idade; ela aconteceu no mundo real.
Bom, minha vida fora da escola começou cedo, aos 8 anos. Desde então, percebi que o mundo não se divide por séries, faixas etárias, ou classes sociais. Enquanto a escola muitas vezes limita o convívio a jovens da mesma idade, a liberdade do ensino domiciliar me permitiu expandir meus horizontes. Minha rotina se tornou uma experiência em ambientes diversos. Na escola lembro que minha rotina era corrida. Acordava, tomava meu café às pressas, fazia a lição de casa, almoçava, me arrumava e saia para a escola. Onde eu passava a tarde ouvindo, em silêncio, a professora dar aula, saindo por 20 minutos para o recreio, que ou eu comia ou eu conversava com alguma criança da minha sala, que obviamente tinha a minha idade. Lembro que todas as vezes eu comia sentada no chão do refeitório, sozinha, sem conversar com ninguém, e dado o sinal voltava para a sala onde eu ficaria mais horas em silêncio. Nós tínhamos apenas uma aula de atividade física por semana, que na maioria das vezes era brincar de pega-pega, esconde-esconde, ou jogos com bola. Após um dia cansativo, sentada e quieta, passava mais uma hora dentro da van escolar e quando eu chegava em casa já era tarde, então eu basicamente jantava e dormia. E essa era a minha rotina de segunda a sexta-feira, corrida e sem contato com as pessoas. E então iniciamos o Homeschool. Algo que eu nunca vou me esquecer, foi o meu primeiro dia de homeschool. Eu me levantei da cama, e antes que eu pudesse iniciar minha rotina como em qualquer outro dia, me deparei na cozinha com uma linda mesa posta e minha mãe me convidando a cozinhar um bolo de massa de pão de ló com recheio de morango. Ahhhh, nunca me esquecerei desse dia, cozinhamos junto com meus dois irmãos, e foi um momento inesquecível. Depois de tomarmos calmamente nosso café da manhã, minha mãe nos arrumou e saímos para conhecer um borboletário. Lá, nos encontramos com mais 2 famílias que também estavam começando o homeschool. Foi um dia espetacular, completamente diferente de tudo o que eu conhecia como 'estudar'. Eu aprendi e conheci mais sobre as borboletas e a natureza, de uma forma completamente diferente do que eu aprenderia dentro de uma sala de aula. Estar em contato com aquelas famílias, que compartilhavam do mesmo frio na barriga e do mesmo entusiasmo que nós, me deu uma sensação imediata de pertencimento e liberdade. Lembro-me do encanto de ver as borboletas de perto e de como aquela experiência prática superava qualquer imagem de livro didático. Ali, correndo e conversando livremente com os filhos daquelas outras mães, as quais uma veio de ônibus com seus quatro filhos e a outra chegou em seu carro importado, eu tive a certeza de que a minha educação não seria mais sobre o silêncio de uma sala de aula, mas sobre a vida acontecendo ao vivo e a vivas cores. Essa primeira vivência fantástica foi apenas a porta de entrada para uma rotina cheia de conexões reais com as pessoas, que hoje moldam quem eu sou.
A minha semana é preenchida por conversas reais e dinâmicas. Participo semanalmente de uma comunidade do Classical Conversations, onde eu passo um dia inteiro com famílias, amigos e colegas de todas as idades. A maior parte do tempo passo em tutoria com mais seis amigos de 15 a 18 anos, onde aprendemos de todas as matérias em um sistema que nós estudamos os conteúdos em casa, para então discutirmos uns com os outros o que aprendemos. Ali não passamos o dia sentados em silêncio, sem conversar, pelo contrário, passamos a maior parte do tempo em pé, explicando ou debatendo, conversamos em todos os minutos do tempo que temos sobre as matérias que estudamos, e temos liberdade para puxar qualquer assunto sobre a vida real no meio de uma matéria. Assim exercito a lógica dos pensamentos e o debate com meus colegas. Quando não entendo algo de uma matéria, não pergunto para a professora e tenho uma resposta fácil e direta. Eu faço minha pergunta aos meus colegas e juntos chegamos na resposta. No começo do dia, no horário do almoço, no final da tutoria, ou em intervalos tenho contato com muitas outras pessoas. Converso com avós de amigos, peço conselhos para mães e pais que estão ali, brinco em uma roda com crianças de 5 anos, seguro um bebê no colo e leio um livro para ele, tenho tempo e contato com pessoas que vão me ajudar a ser alguém melhor, e desenvolvo a habilidade de conversar e ajudar pessoas mais novas que eu. Fora a comunidade, tenho meu tempo no tatame do karatê, onde três vezes na semana, por cerca de 1h30 por dia, eu aprendo sobre disciplina, concentração, defesa pessoal e respeito mútuo. É um lugar onde além de treinar meu corpo eu treino minha mente. Entendo que assim como devo me relacionar respeitosamente com meu Sensei, meus colegas devem me respeitar de acordo com a minha graduação. Mas isso não quer dizer que não podemos conversar normalmente e formar vínculo uns com os outros. Eu tenho a oportunidade de conversar com homens e mulheres de todas as idades, treinar com todos, apoiá-los em cursos, treinos e competições, assim como eu também sou apoiada, e dar aula às crianças. Foi lá que desde os meus 8 anos, aprendi a importância do respeito e humildade nos meus relacionamentos. Além disso, a comunicação vai além da fala verbal, nos encontros de libras, descubro novas formas de inclusão, conversas e empatia. Eu aprendi e continuo aprendendo a me comunicar em libras e fazer traduções simultâneas. Participo de encontros de surdos onde aprendo mais sobre libras, com jovens e adultos. Onde posso me aprimorar e me comunicar com mais pessoas. Hoje, saber que sei as duas línguas oficiais do meu país, me deixa muito feliz. Pois sei que consigo me comunicar com brasileiros ouvintes ou surdos, num mundo onde poucos valorizam o aprendizado dessa língua para a inclusão dessas pessoas. Exceto tudo isso eu ainda participo de encontros de jovens e adolescentes da minha igreja, da igreja do meu irmão, e da igreja dos meus amigos de outra cidade, que por si só já diz tudo, eu tenho a oportunidade de conversar e brincar de jogos com jovens e adolescentes; participo quinzenalmente de um encontro de mulheres com minha mãe, onde eu posso ter conversas com mulheres mais experientes que eu; entre tantas outras coisas das quais eu poderia ficar horas explicando. Toda essa bagagem mostra que a minha socialização nunca foi desvalorizada ou artificial. Das discussões lógicas na tutoria ao silêncio da Libras, passando pelo respeito no tatame e pelo relacionamento com as mulheres da igreja, a minha vida é cercada de pessoas. Eu não precisei de uma sala de aula tradicional para aprender a conviver em sociedade. O homeschool e o mundo, em toda a sua diversidade de idades e vivências, me ensinou e ainda ensina a ser uma mulher melhor.
No entanto, o reflexo mais bonito dessa trajetória é a facilidade que eu desenvolvi para transitar entre gerações. Participando ativamente das aulas às crianças, dos encontros de jovens, mas também do grupo de mulheres, percebi que consigo me conectar com qualquer pessoa. Mesmo eu sendo uma pessoa introvertida, eu e minha família vemos o tamanho do desenvolvimento da minha habilidade em conversar e me relacionar com as pessoas. Minhas conversas fluem naturalmente, seja compartilhando histórias com a avó de uma amiga na comunidade, debatendo com meus colegas várias ideias diferentes, seja segurando e ajudando a cuidar de um bebê, ou ensinando karatê para um grupo de crianças pequenas. Para mim, a socialização nunca foi sobre popularidade, mas sobre a capacidade de criar vínculos genuínos e saber compartilhar ideias claramente.
Agora, aos 16 anos, olhando para trás, vejo que o homeschooling não me privou da socialização, ele a refinou. Ele me transformou em uma jovem segura, comunicativa e pronta para o mundo adulto. Essa trajetória me deu algo que nenhuma prova ou boletim escolar tradicional poderia dar, ela me preparou de verdade para a vida real, e não apenas para passar de ano. Enquanto o sistema comum muitas vezes treina os jovens apenas para decorar conteúdos e avançar de série em silêncio, onde a socialização envolve apenas cumprimentar um colega na saída, a minha educação me ensinou a pensar por mim mesma, a acolher o outro e a construir um relacionamento entre gerações. Afinal, a vida real nunca foi dividida por salas de aula e, graças a essa escolha, eu já aprendi a viver e a me conectar de verdade nela. Por isso, se hoje alguém me fizesse novamente aquela velha pergunta sobre como eu faço amigos, eu diria que a verdade é que aquela suposta 'bolha de vidro' que muitos acreditam existir no homeschooling nunca fez parte da minha realidade. Minha socialização não foi moldada por quatro paredes ou aparências, mas pela capacidade de me comunicar com pessoas de todas as idades e criar vínculos genuínos. Porque saindo da escola eu não fui isolada do mundo; eu fui preparada para ele.
Mariana Moraes, 16 anos
Estudante homeschooler